domingo, agosto 12

a short film about love

Kieslowski, 1988

sábado, agosto 11

das advertências

A acção e as figuras deste romance reportam-se a um mundo ficcional de entrada franca, sem chaves ou gazuas. Procurar moldes da vida real para acontecimentos e personagens é ter em má conta a imaginação do autor. Pode ser que ele o mereça, mas não os lesados por equívocos de leitura.

Mário de Carvalho, A Sala Magenta


Esta novela parece querer demonstrar que sucedem casos incríveis. 
O autor conheceu alguns personagens e soube como passaram as coisas aqui referidas. 
Pois, assim mesmo, tão incongruentes lhe pareceram que ficou longo tempo indeciso se lhe seria melhor inventá-las para saírem mais verosímeis do que as verdadeiras.
A consciência gritou-lhe quando o romance estava já urdido e enredado com outro feitio. 
Venceu a verdade, onde já agora, e tão-somente, lhe é permitido vencer: - nas novelas. 

Camilo Castelo Branco, O Retrato de Ricardina

quarta-feira, março 21

dia da poesia

«Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.» Adélia Prado

sábado, março 17

tempo detergente

é sábado, dizem-me, tempo de limpar as casas do cansaço de cinco dias. como explicar que o que trago sujo são as palavras?

terça-feira, março 13

viarco

no dia em que eu mais gostei do mundo um desenhei um arco-íris na parede do quarto.
claro que a família não percebeu e foi-me decretado um castigo a cinzento.

sensacionista e tudo

a emaranhar  iva nos versos
a vinte e três por cento

quase hemistíquio
quase fuga
ao fisco. 

domingo, dezembro 18

"Pois bem, e se os humanos superassem os animais na sua capacidade de violência precisamente por falam? Como Hegel já sabia, há qualquer coisa de violento na própria simbolização de uma coisa, equivalendo à sua mortificação
È uma violência que opera a múltiplos níveis. A linguagem simplifica a coisa designada, reduzindo-a a um simples traço. Difere da coisa, destruindo a sua unidade orgânica, tratando as suas partes e propriedades como se fossem autónomas.
Insere a coisa num campo de significação que lhe é, em última instância, exterior. Quando chamamos «ouro» ao ouro, extraímos violentamente um metal da sua textura natural, investindo nele os nossos sonhos de riqueza, poder, pureza espiritual e assim por diante, ao mesmo tempo que nada disso tem relação com a realidade imediata do ouro."

Slavoj Zizek, Violência, 6 Notas à Margem

laringoscopia

contemplo nas janelas o hálito cinzento dos meus dias.
a fímbria do vidro entre nós e o frio,
entre nós a paisagem.

os autocarros roncam, as pessoas zumbem,
e o silêncio vagueia impreciso,
embaciado,

como o hálito da boca no vidro.
o mesmo hálito
que outros dias contorna palavras
e beija bocas.

oração dominical

não há pai nosso mais bonito que isto: age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim e nunca apenas como um meio.


quinta-feira, dezembro 1

para contornar a pressão dos mercados II

invista em títulos poéticos. uma alternativa aos mercados de capitais.

para contornar a pressão dos mercados I

decreta-se, desde já, a obrigatoriedade de todos os cidadãos tipo sanguíneo A+ e B+ transitarem, a partir das 12 horas de hoje, para tipo sanguíneo AA+ e BB+, respectivamente.

America by Allen Ginsberg with music by Tom Waits

domingo, agosto 7

Eric Rohmer - Le rayon vert (1986) Trailer



a minha estação do ano preferida: o verão. o verão em rohmer.

terça-feira, julho 26

rating (1)

condicionada. condicionada aos 24 graus sem janelas. o sol enviesa-se mas não me alcança. 
oh, tati, tati de mim.

segunda-feira, julho 25

a montanha mágica

hans castorp desceu, enfim, à planície. eu ainda não.

metrómano (1)

blogue em estado de scat.

quarta-feira, julho 20

explicação da poesia sem ninguém pedir

 Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou a minha vida
virou só pensamento

adélia prado

terça-feira, maio 3

quarta-feira, abril 27

segunda-feira, abril 25

O apanhador de de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis,
Tenho em mim esse atraso de nascença,
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas,
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros, Memórias Inventadas

quinta-feira, abril 21

Kantianos