Domingo, Novembro 8

Kavafis

Os lábios de um homem beijam tanto melhor quantos mais versos ele souber de cor. (...) Não há uma pálpebra perfeita que feche o cérebro, o proteja da luz excessiva, a não ser o amor.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca

Segunda-feira, Outubro 19

jamás

recomendação à navegação: deve evitar-se a frequência de aulas de literatura barroca em dias de aniversário.
muito especialmente se o tema for o do collige, virgo, rosis e, sobretudo, se se houver dado lugar à passagem de três décadas.

Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido relumbra en vano;
mientras com menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello.
Mientras cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triumpha con desdén loçano
de el luciente crystal tu gentil cuello;
goça cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,
no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

Góngora

Domingo, Outubro 18

reticiência

eis-me banal e vencida, cumpridora exemplar da apatia fimdesemanal e demais dilemas estéticos e morais.
eis-me, sistólica e cansada, pronta a distender-me pelas colinas vastas do meu sono de três décadas.

eis-me rodeada de livros por todos os lados menos um, assim como as penínsulas, mas com mais jeito para dar cabo de mim.

i´m in a cig harvey state of mind












a place to be

ontem, deambulando quase sem rumo, fomos aqui ter. é o império da girafa, à ribeira. arte, aconchego e muita simpatia. para voltar.

Sábado, Outubro 3

weisheit

não sei se o que me falta é luz
ou paisagem
talvez um rosto de criança
que me levasse sem para trás e sem vergonha.

até à morte.


talvez seja a ausência da música no modo como nos tocamos
a parecer o tempo que morre
e sopra frio sobre o coração.

sento-me em frente ao espelho
o meu rosto olha-me de fora para dentro
até ser ele só que me pensa

uma aquietada modelo
que todos vissem
cénica e nua a servir a arte

um pouco assim como as bruxas
e também muitas putas
que depois de retratadas
davam santas de altar e matriz.

eu também dispo e visto,
e sei usar os gestos da civilização ocidental
para sair à rua e dizer que sim
mas desconheço a beatificação,
aquele modo antigo e seguro de caminhar
feito de recato e pai nosso

aquele mesmo modo
de quem sabia que enfim nos perdoa
o tempo
destas horas que um ao outro emprestamos
para sermos impuros
e uma outra vez
fugirmos à morte.

Domingo, Setembro 27

significado de diáfano




a trindade de andrei rublev, para final de tarde escutando palestrina.

Sexta-feira, Setembro 4

a voz humana


falar telefonicamente com qualquer serviço norte-americano deixa-me sempre peculiarmente confusa.
nos primeiros instantes, é-me muito difícil destrinçar se estou a ouvir um cidadão americano ou uma gravação automática.

Quarta-feira, Junho 17

a conta que deus fez

ao parece, multinacionais de renome estão a recorrer aos préstimos clericais para solucionar (espiritualmente?) problemas de inventário.
e não é que lá se conseguiu, por fim, os resultados esperados com o inventário ?todos os detalhes na pensão estrelinha.

Segunda-feira, Junho 8

ligações neuronais

«Queria que do meu estudo resultasse um gráfico - um único gráfico que resumisse, que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Perceber se o horror está a diminuir ao longo dos tempos ou a aumentar. Se é estável. Repara que descobrir que o horror tem uma certa estabilidade histórica, que mantém certos valores, digamos, de cinco em cinco séculos, se conseguir encontrar uma regularidade, estarei perante uma descoberta fundamental.»

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

«L.F.Richardson foi um meteorologista britânico que se interessou pelo fenómeno da guerra, cujas causas desejou compreender. Existem paralelos intelectuais entre a guerra e o clima: são uma como o outro complexos, uma como o outro revelam alguma regularidade, o que significa que não são forças implacáveis, mas sistemas naturais que podem ser compreendidos e dominados. Para entender o clima do nosso globo, para estudar o seu comportamento, em primeiro lugar é necessário reunir grandes quantidades de dados meteorológicos. Ora segundo Richardson, temos de abordar do mesmo modo o fenómeno da guerra, se bem o quisermos entender. Assim, procedeu à recolha da dados sobre as centenas de guerras ocorridas no nosso pobre planeta, entre 1820 e 1945.»

Cosmos, Carl Sagan

«Chegando ao gráfico do horror distribuído pelo tempo poderia então começar a pensar em algo mais importante: a fórmula. Uma fórmula numérica, objectiva, humana poderia mesmo dizer, não animalesca, não sujeita a flutuações de sentimentos ou de ânimo, uma fórmula puramente matemática, puramente quantitativa, serena, diria, uma fórmula serena.»

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares


«Os resultados de Richardson foram publicados a título póstumo num livro chamado The Statistics of Deadly Qarrels. O autor, para determinar o lapso de tempo que se escoará antes que uma guerra cause um dado número de vítimas, definiu o índice M, magnitude de uma guerra, ou medido do número de mortes imediatas que esta provocará. Uma guerra da magnitude M=3 será uma simples escaramuça, que matará apenas mil pessoas. (...) Richardson descobriu que quanto mais pessoas morriam durante uma guerra, menos provável esta seria e mais longo seria o intervalo de tempo a decorrer até ela acontecer, assim como as tempestades violentas são menos frequentes que os simples aguaceiros.»

Cosmos, Carl Sagan

Mas não procuro apenas a fórmula que resumas os efeitos do horror, que resuma aquilo que o horror fez no passado; pretendo ainda alcançar uma outra fórmula; uma fórmula que permita prever, que permita agir e não apenas contemplar ou lamentar.

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

«Richardson adianta que se prolongarmos a curva até aos pequenos valores de M, até M==, podemos prever a incidência dos assassinatos cometidos no mundo inteiro: algures no mundo, de cinco em cinco minutos é assassinada uma pessoa. Segundo ele, assassinatos individuais e guerras de maior escala são dois extremos de uma continuidade, duma curva ininterrupta.»

Cosmos, Carl Sagan

«No entanto, tenho um medo, um medo ainda maior do que o de perceber o estado clínico da História piora de dia para dia ou de século para século, medo ainda maior do que chegar a resultados que mostrem que a intensidade da relação horror/tempo tem vindo a aumentar; (...) o grande medo é, então, (...)que o gráfico revele uma estabilidade, uma estabilidade assustadora, uma constância do horror no tempo, uma manutenção da normalidade do horror que termine por completo com qualquer esperança. A curva visível nos três primeiros séculos depois de Cristo a repetir-se a cada três séculos: é desta repetição das curvas, é deste tédio que mais receio tenho.»

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares



Richardson's representation of the number of conflicts of each magnitude compared with the number that died in each. (From Statistics of Deadly Quarrels)

Sábado, Junho 6

feira do livro

não vou execrar a chinfrineira muito shabby e nada chic da leya, a que faltavam apenas as inestimáveis farturas.
os meus recessivos euros foram todos parar aos sítios do costume e às edições sá da costa onde, entre demais, trouxe o intitulado descobrimento da índia de joão de barros, das décadas, e que agora leio com o redobrado e fetichista prazer de lhe ir abrindo as páginas com um abre-cartas.

pousio vespertino

onde ultimamente pratiquei a tão bela arte do pousio:

sigmund freud, uma recordação de infância de leonardo da vinci
tolstoi, a morte de ivan ilitch
carl sagan, cosmos
natália correia, breve história da mulher e outros escritos

Sexta-feira, Junho 5

excitação da clorofila

costumamos dizer, os dias estão maiores e no entanto continuam a ter as contadas 24 horas. mas é verdade, também a mim me parece agora que tenho mais tempo de vida.

Domingo, Maio 31

resumo de vida

tudo que ulisses fez foi olhar para trás, que é uma espécie de circum-navegação. parece-me peculiar que freud não tenha autopsiado ulisses.

já eu nunca fiz um caminho. tudo que alcancei foram devaneios, ziguezagues e algumas declarações de irs.

Sábado, Maio 16

tão bom, a chuva




Terça-feira, Maio 5

humorocracia

Para obter autorização de entrada nos eua é necessário preencher um documento que entre outras faz a seguinte questão:

C) Já esteve ou está agora envolvido em espionagem ou sabotagem; ou em actividades terroristas: ou genocídio; ou esteve envolvido entre 1933 e 1945, de alguma maneira, em perseguições associadas à Alemanha Nazi ou aos seus aliados?

o conteúdo e a pontuação espantam-me de igual modo.

Segunda-feira, Maio 4

andante

aqui não há mar - ou o mar está longe - é quase a mesma coisa, se não o ouço nem cheiro.
e é por isso que agora derivo como os velhos que andam devagar e sempre a olhar os mapas invisíveis do chão. esqueceram a pressa, só fitam. como os olhos ínfimos do meu avô, sempre pelo chão. outro nível de leitura.
a profundidade dos mortos é não saberem o que dizem e nem nós os podermos ouvir.
olho para onde não estou e às vezes parece que é para dentro. órgãos, tantos órgãos e eu entretida a pensar, a roupa por estender e os pecados todos por redimir.

Quinta-feira, Abril 23

southern guys


o novo álbum do e-ternamente bem-vindo bill callahan tem suscitado, por diversos blogues, citações de alguns dos seus temas; não que me querendo alijar de tal fenómeno, eis os meus versos eleitos:

«Eid ma clack shaw Zupoven del ba Mertepy ven seinur Cofally ragdah»

Domingo, Abril 19

i´m on standby

Sexta-feira, Abril 10

late









Sábado, Março 7

período de férias



Sexta-feira, Fevereiro 13

sexta feira dia 13

hoje, sexta feira 13, dia aziago para os superticiosos mais pitagóricos, a minha auto-estima atingiu píncaros nunca antes alcançados. por causa de trabalho, recebi um elogio proveniente do MIT, massachussets institut of technology para os mais íntimos.

Quinta-feira, Fevereiro 12

13:33

de repente faz aqui tanto silêncio, à hora do almoço, que ouço o sol entrar pelos meus cabelos.

Segunda-feira, Fevereiro 9

malvados


tuvalu

tanta chuva, só me faz sentir como em tuvalu.


tuvalu, o filme.



não o arquipélago, infelizmente.

Domingo, Fevereiro 8

monsieur gainsbourg revisited


especialmente, "Those Little Things",Carla Bruni; "I Love You (Me Neither)" Cat Power e Karen Elson; «I Call It Art» (The Kills)

Segunda-feira, Fevereiro 2

As Pessoas Felizes

«Depois de alguns anos de casada, Nel verificava que cometera um erro ao pretender fazer um homem feliz; e que o acertado seria fazer três ou quatro desgraçados.»

Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 181

«Nel pensava que se ama muito mais quando se esquece o desejo de amar. Para o europeu, o amor tornara-se uma forma de imaginação, ainda que desacreditada; assim como a morte. Era uma imaginação que produzia tanto mais angústia quanto ameaçava extinguir-se como causa dinâmica. Só parecia persistir no ser humano como outra experiência litigiosa confinada à sensualidade.
A paixão, movimento em que o amor se absorve mas não actua como um pretexto da sensualidade, não possuía qualidade a ser devassada. Surgia de assalto; primeiro como uma proposta inumana, depois como desastre da consciência. Desenvolvia-se como uma doença, alucinava os desprevenidos, desgraçava os fortes, corrompia os orgulhosos. O processo da paixão, detectado em diferentes culturas humanas, na fúria das bacantes, nas celebrações tribais, nas imunidades que a guerra promete, a paixão tudo contamina, tudo enlaça, projecta e transforma. »

Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 49

Nel reparou que Maria devia ter já quarenta e cinco ou quarenta e seis anos. O lábio superior era franzido como o das velhas impertinentes e beatas. Mais algum tempo, e ela esquecia tudo aquilo, porque a paixão tem uma duração própria, como uma febre ou o efeito de um tóxico. Porém, a composição duma droga, por exemplo a cannabis, a sua acção nas dores menstruais ou o seu carácter alucinógeno, eram conhecidos da farmacopeia e da polícia dos costumes. A paixão, não. Talvez certas tribos abordem o seu conhecimento ao chamar-lhe amok, ou transe bacante, ou coisas assim. Talvez o ritmo negro dos tambores ou a mensagem dos blues se refiram a isso. Mas o europeu está tão divorciado do seu inconsciente quanto se projectou para a superfície da natureza, onde a vida é mais rápida e onde o seu metabolismo não consente as interpretações da profundidade e do tempo.


Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 176

Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram.

Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 7

Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos, etc, etc. Este sentimento de confiança arrebatadora desarticulava-se, perdia a relação com tempo, os pensamentos, as pessoas. Nel percebia que alguma coisa devia ser feita para que a sua formidável certeza se recuperasse. O seu apelo ao subconsciente de todo o mundo estava, no entanto em declínio.

Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 193

- Não achas que há demasiada literatura e pouco ar puro?
- E tu para que queres ar puro? O cheiro dos campos matava-te, não estás habituada. E é tarde para todos nós nos habituarmos»

Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes, p. 194











objectofilia


carnet de bal

solário

o pensamento devia ter raios uva e uvb, assim era quente onde estamos mais sós.

people are like seasons


sinto-me como um nórdico, hoje, feliz de tanto sol.

Quinta-feira, Janeiro 29

the office

ninguém no departamento sabe, mas além de estar verdadeiramente contente com o meu novo carimbo, que é vermelho e diz«confidential», a minha saia é mesmo sexy.

Terça-feira, Janeiro 27

freud, a culpa e as senhoras da limpeza

há dias, sonhei que, depois de dar instruções de limpeza a uma funcionária, ela se vingava de mim, com requintes de malvadez, saídos de uma vingança à kill bill.

ouvi, há instantes, o carrinho das limpezas aproximar-se, conduzido como uma quadriga, por senhoras que mais parecem boadicieias trovejantes.

é inútil, a minha secretária há-de ter o tampo mais sujo de todo o departamento.

loca infecta

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

quer-me parecer que, por detrás do último desejo,cada vez mais comum, de ser cremado, está, essencialmente, uma aspiração à beatitude asséptica.
as ancestrais precauções com os demónios e fantasmas foram substituídas pelo combate à bactéria. o mundo, afinal , não deveria ser o contrário de imundo?

a mesma coisa para a morte. o que se quer é, cada vez mais, uma morte limpinha.

Quinta-feira, Janeiro 22

post-me

hoje está nevoeiro e, como se sabe, o nevoeiro é a meteorologia dos míopes.

bio-ritmo

só porque é bonito, ou então porque os meus dedos parecem ágeis e depois é tão difícil ser verbalmente pontual.as palavras chegam atrasadas, mesmo que tente viver devagar. é tudo um bocadinho parecido com as cortinas azuis que comprei tão depressa há 3 meses atrás e continuam pousadas, como se fossem senhoras cansadas, numa das cadeiras que nunca se usam, ou só se usam para deixar cortinas azuis.

arrumo os clips cromaticamente e vejo: o problema nunca é estar enganada, é chegar à verdade com atraso.

Terça-feira, Janeiro 20

focal point

com tantas janelas que nunca vão dar a paisagem nenhuma, todas as minhas percepções visuais, do local de trabalho, vão dar a memórias de tati.

Quinta-feira, Janeiro 15

portugal-canada: the google connection



clicar na imagem, para aceder aos tão insondáveis mistérios googlianos, traduzindo portugal por canadá.
gonçalo tavares reencarna, na mesma plataforma, como mary shields, ao passo que luiza neto jorge é robert shumann. mário cesariny, por seu turno, é christopher cornall.
e mais não poderei adiantar, pois é chegada uma hora em que nos sentimos obrigados a contribuir para o pib nacional.

Sexta-feira, Janeiro 9

intervalo de almoço

à falta de janelas, fico à espera de ver nevar pelo instituto nacional de meteorologia.

Sábado, Dezembro 27

contemptus mundi




jean-luc godard, le mépris

Sexta-feira, Dezembro 26

speak, memory, vestais e nabokov post-mortem

há uns anos atrás, lembro-me de ficar a brincar de vestal domesticada, acender lumes dominicais que serviam para a preparação de infusões, sempre tomadas cerimoniosamente, com gestos cuidados e solenes que inventava com o propósito de sacralizar a passagem. durante esses domingos, abrigados pelo sempre presente rumor do mar, lia como uma sonâmbula, deitada no chão, por entre almofadas, como uma otomana reminiscente. o meu cão dormia ao lado, respeitador dos grandes segredos.

foi nesses domingos sonâmbulos que li a correspondência de durrel e henry miller e o quarteto de alexandria. todos os primeiros domingos de cada mês, havia uma feira de usados tão perto da casa minúscula onde vivia, que era como se a feira fosse o meu quintal. dessa feira trouxe muita matéria dominical.

de uma das vezes, encontrei speak, memory de nabokov, na outra margem da memória, tradução portuguesa da difel. tal como muitos dos outros livros comprados assim, podemos ser surpreendidos pelos indícios de quem já os possuiu - e tenho quase a certeza de já ter lido, ou visto em algum filme, um coleccionador de dedicatórias amorosas em livros de alfarrabista.
neste nabokov, encontrei uma cinta de avença do secretariado diocesano da pastoral juvenil (diocese de portalegre e castelo branco, rua actor taborda, 90), dirigido a um grupo de jovens do crato.

talvez servindo como marcador de página, uma imagem de santa ana, uma daquelas imagens que a minha avó chama «santinhos» e servem aos fins mais portáteis da fé.

de nabokov, soube-se muito recentemente que será publicado, em 2009, uma obra póstuma, deixada inacabada e que o próprio teria ordenado que fosse destruída. a mulher não foi capaz de o fazer e a obra, depositada numa caixa-forte convenientemente helvética, passou para as mãos e decisão do filho de nabokov que, recentemente, anunciou a intenção de publicá-la. em 2009. uma vez mais, a polémica imprimatur est/non est das obras póstumas.
carregando na imagem, a explicação made in bbc:




há um tacto especial no arranjo floral de colocar os dedos vegetalmente, esperando, sonolentos. os dedos enredam-se, polvos digitais, numa sombra de encruzilhadas sobre o peito. recuam, dobram-se, humilham-se por nós. fálicos e culpados instrumentos de precisão, radares de distância, guardadores de silêncio e acusação.
as mãos são a linguagem que dança e os dedos o ensaio de sermos movimento.

filamento

não sei o que é a noite, nem este lado errado de estar a ouvir o mundo quando o mundo nada diz. as ruas calaram-se por respeito ao sol. temos tanta meteorologia, tanta hermenêutica. o mundo inteiro, até às mitocôndrias, é um capítulo hermenêutico. estou à janela. os carros que passam são uma tosse à saúde da minha paz farmacêutica.
os meus olhos estão cansados e, se me cansam os olhos, adormece-me o pensamento.
afinal, estar acordado é dormir sem o corpo e o corpo é feito de noite

Sábado, Novembro 8

cardoso pires por antónio lobo antunes

"Que se saiba há um único homem que se põe de pernas para o ar como as personagens de Chagall. Por exemplo: está muito bem a comer, surge um rafeiro e ei-lo de sapatos mais altos do que a toalha («Detesto estes cabrões, detesto estes cabrões, detesto estes cabrões») a navegar no azeite do bacalhau como os violinistas do pintor à deriva na tela. Por exemplo: a gente sobe à noite os degraus do elevador da Bica, iluminados de lado de taberna em taberna, eu a cambalear de cansaço nas escadas e ele a flutuar à minha volta como um anjo de óculos, conversando comigo de Antonioni e Godard, primos distantes, com relógios e amantes abraçados em torno do blusão. E há os bares, os cabisbaixos bares tristes de Lisboa, tumulares e desesperados, que o gás ilumina de pavios de azeite amarelo com duas pedras de gelo, debaixo da ponta acesa do cigarro americano, em homenagem a Hemingway e a Fitzgerald. E os restantes flibusteiros connosco. Artur Semedo, a servir atrás do bigode fino a sua ironia de Capitão Blood benfiquista; Dinis Machado, sempre a apear-se de um comboio de inocência perpétua, de sapatinho elegante e sobretudo à George Raft; e eu, o último e mais espantado da troupe, calado, de queixo numa água das pedras vazia. Quando anoitece, José Cardoso Pires começa a ganhar consistência no interior da roupa, íntimo de barmen e do labirinto estranho em que Lisboa se transforma, balizada de chafarizes e polícias que perderam, desde há séculos, o costume de sorrir. As árvores pingam trevas em cima de nós, os prédios aproximam-se, como as ovelhas, para adormecerem, encostando umas às outras os quadris das varandas. George Raft abotoa melhor o sobretudo. O Capitão Blood, de olho aceso para recordações distantes, ajusta-se na luva preta e no emblema do Colégio Militar onde moeu os miolos dos tenentes e fez coçar de aflição os sovacos dos maiores. E eu alinho um segundo gargalo de água das pedras à ilharga do primeiro, enquanto José Cardoso Pires levanta as duas mãos para se lançar no espaço rarefeito de fumo a explicar Jack Nicholson. Às duas da manhã, quando as rugas, piedosamente apagadas pela ausência de sol, fazem de nós um grupo de adolescentes à espera da primeira comunhão e de uma nova garrafa, e os empregados dos bares circulam entre as mesas com a diligência das senhoras que procedem à recolha das esmolas no ofertório das missas, movidos pelo afã cristão da cirrose, saímos para o ressonar a estores soltos dos bairros de Lisboa, o Dinis ocultando o revólver no sobretudo impressionante, o Artur, corsário do celulóide, a ferver de ideias de tal forma que o bigode lhe borbulha, eu a arrotar a água das pedras nas esquinas, que é a minha forma canina de erguer a perna e urinar, e o Zé, granito sem peso, à procura do Dupont nos bolsos para nos converter melhor a um golo do Nenê. E é ele o único de nós que voa, sem peso, por cima das mandíbulas das camionetas do lixo e dos pesadelos dos escriturários, tripulando a nuvem de um Renault branco que se some, a tremer, sobre os telhados, rumo às folhas de papel A4 que são os lençõis em que por fim nos deitamos, a rechear de ossos o pijama e de palavras adiadas os rectângulos das páginas. Hei-de informar-me se o Zé não dorme sem tocar nelas, ensanduichado pelo diálogo de duas personagens, apesar do lastro do mar da Caparica por dentro da cabeça e das folhas das árvores de São João de Brito ao comprido do sangue. E acorda no dia seguinte estremunhado, rodeado de gaivotas, por cima do hálito de baunilha do vendedor de gelados da Praia da Rainha. O hóspede de Job, meu Amigo."

in Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 101-103

Terça-feira, Outubro 7

procura-se

locus amoenus para a prática de aurea mediocritas
(venda ou aluguer)

com pequeno riacho e verdes arvoredos

elogio da lentidão

gostava de ainda saber desenhar as letras como faz uma criança que acabou de aprender a escrever. como se desenhasse o universo.

Domingo, Outubro 5

um copo de cólera

...fui empurrando a minha história, equacionando uma álgebra tropical, ardente como nas origens (sangue e areia), uma operação perfeita para não dispensar os valores positivos da pilantra, mas que não prescindia jamais, por outro lado, dos meus valores negativos (ou da «mão amiga dos assassinos»): «já disse que a margem foi um dia meu tormento, a margem agora é a minha graça, rechaçado quando quis participar, o mundo hoje que se estrepe!caiam cidades, sofram povos, cesse a liberdade e avida, quando o re de marfim está em perigo, que importa a carne e o sosso das irmãs e das mães e das crianças? nada pesa na alma que lá longe estejam morrendo filhos...» «há-há-há...ele perdeu as estribeiras...há-há-há...delinquente!« «...que tudo venha abaixo, eu estarei de costas; ao absurdo, com a loucura, e nem podia ser outra a resposta; é amarga, sim, mas no mínimo adequada, e isto não depende do teu decreto, pois desde já é fácil prever o teu futuro:além de jornalista exímia, você preenche brilhantemente os requisitos como membro da polícia feminina; aliás, no abuso do poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros» «não é comigo, solene delinquente, mas com o povo que você há de se ver um dia» «pensem pilantra, uma vez sequer nessa evidência, ainda que isso seja estranho ao teu folclore, ainda que a disciplina das tuas orelhas não se preste a tanta dissonância: o povo nunca chegará ao poder!» « louquinho da aldeia!...entrou de vez em convulsão, sabe-se lá o que ainda vem desse transe paroxístico...»

um copo de cólera, raduan nassar, p. 46-47, relógio de água

retiro espiritual

momento marie antoinette

à falta de pão, e na ausência de qualquer vontade de sair de casa, fiz panquecas para o pequeno-almoço domingueiro.

Sábado, Outubro 4

pop wisdom


Denny: Alan you know the one thing we sometimes forget is no matter how hard your day, no matter how tough your choices were, how complex your ethical decisions...you always get to choose what you want for lunch.

Alan: Daily I am amazed at your inexhaustable ability to just live.

Denny: It's either that or die.

Quinta-feira, Outubro 2

índice de desenvolvimento humano

eu tenho dois empregos. hoje, tinha uma reunião de manhã. ninguém apareceu, nem ninguém me avisou.
de tarde, cheguei pontualmente ao outro emprego. depois de uma hora e trinta minutos pediram-me que voltasse apenas na segunda-feira, porque o meu horário tinha sido modificado.
kafka não teria escrito uma única página, se tivesse vivido em portugal.

poesia concretista

Grandaddy

«Jed's Other Poem (Beautiful Ground)»




Terça-feira, Setembro 30

estado de espírito



Terça-feira, Setembro 23

contas à vida

o meu coração deverá vir a ter, aproximadamente, mais 39.945 600 sístoles e diástoles, ao longo deste ano.

Quarta-feira, Setembro 10

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

Luis Garcia Montero

Domingo, Setembro 7

banda sonora

parece que já fui mais velha. sento-me quieta no canto mais quieto da casa e assisto.
estou à espreita. é tudo muito ínfimo, como as memórias mais antigas, como uma flor que já morreu mais ainda mantém todas as pétalas.
um sopro e a casa pode-me cair, desfeita, por cima do coração. é difícil saber que somos assim tão escassos.

Sexta-feira, Agosto 1

agosto é também mês agamben

saldos

e eis que, por fim, adquiro os últimos dias da humanidade, de karl kraus, 10 euros, na «feira do livro» do cais de gaia.

Segunda-feira, Julho 28

linha amarela

em homenagem, temos a declarar o avistamento de certo mancebo, na linha amarela do metro portuense, lendo a ronda da noite, de agustina bessa luís, evento responsável por elevados níveis de comoção sentidos por diferentes portadores do título andante e postes de abastecimento energético.

cumprimentos a todos e à santa terrinha

o meu cão dorme, rodeado de sossego por todos os lados, sem alfabeto que o atrapalhe. a mim disseram-me que não sonhamos com textos.
o nosso inconsciente é analfabeto.

mas ao contrário de um cão, quando acordamos, ficamos em estado de texto. o alfabeto são batimentos cardíacos: as vogais sístole, as consoantes diástole. e só o amor desordena a sucessão consoante-vogal.

estar doente é como um erro ortográfico e morrer é não ter palavras.

Terça-feira, Julho 22

imunologia

não era a sério, era assim quase a fingir.
agora não faz mal, parecemos soldadinhos de chumbo, somos todos de brincar, mas não aprendemos a rir.

o dia que eu mais gostei do mundo foi quando desenhei um arco-íris na parede do meu quarto. também não era a sério, era quase a fingir. claro que a minha família não percebeu nada e decretaram-me um castigo a cinzento.


também sempre quis saber qual exactamente a cor do vazio. às vezes fecho os olhos com muita força, penso que assim é vazio, mas estou só a ver para dentro do que não vejo e depois tudo isto me confunde e nunca sei exactamente onde estou, se existo de fora para dentro, se a pele começa para o lado de fora ou para o lado de dentro.

porque se a pele começa para fora o mundo é tão perto que assusta. mas se a pele começar para dentro podemos perder-nos e ficar tão sozinhos que perdemos a voz.

Domingo, Julho 20

linguagem gestual

a brincar à valsa com as palavras, rodeios e rodopios, como se não estivesse ali para dar complementos directos aos meus predicados.

meia verdade

a minha janela é feita de metades. daqui vejo uma meia casa, um meio telhado e até uma meia igreja.
há dias, da casa em frente, uma mulher caiu da varanda e ficou estendida no chão, meia morta.
ouvi depois, a meia voz, que já está a meio caminho de ficar inteiramente recuperada.

Sexta-feira, Julho 18

história do camelo que chora

documentário lançado em 2004 que nos faz acompanhar o quotidiano de uma família mongol, no deserto de gobi, e as suas tentativas para salvar um camelo recém-nascido, rejeitado pela progenitora. abarcando o conjunto mais etnográfico, comove-nos com instantes narrativos e dramáticos, num registo muito próximo da comunhão silenciosa.

Quarta-feira, Julho 16

limpeza a seco

fiz uma playlist com efeitos medicinais. pretendo curar-me de uma gripe enfadonha com muito bill callahan e neil young.

Terça-feira, Julho 15

rezar

nunca sei que oração anteponha a ergo sum.

Segunda-feira, Julho 7

não

uma antinomia não resolve nada: existencialmente, os paradoxos são muito mais do que dúplices. esta música, por exemplo, esta música é para fazer analepses.
#
tantas palavras, tantos livros e dicionários, tantas posições estéticas, filosóficas, sexuais e eu nunca sei do que estou a falar. vivo em estado de decifração e o tempo não é claro enigma.
#
os pássaros sim, deviam ser azuis, e o céu branco, alvíssimo: o mundo tem muitos erros cromáticos, talvez os daltónicos estejam a ver tudo melhor.
wittgensteinianamente, daltónicos e disléxicos poderiam ser apenas teimosos.

Segunda-feira, Junho 30

o voltaire do nilo

no passado dia 22 de junho, morreu em paris albert cossery. o escritor egípcio tinha 94 anos e faleceu no quarto de hotel que ocupava desde 1945, o mesmo ano que chegou a paris.
ao longo de cinquenta anos publicou oito romances, com o egipto como cenário e os mendigos, vagabundos e todos os errantes como personagens de eleição. bartleby é que me levou a cossery.
a morte do autor interceptou a leitura que faço de «a casa da morte certa».
o meu a páginas tantas assinala 57:

Estamos prestes a ser enterrados vivos - disse Soliman El Abit - e tu, ó homem, só pensas nos clientes. Onde tens o espírito?
- Conheço um homem - disse Bayoumi - que foi enterrado vivo. Aprendeu muitas coisas.
Falava com uma voz profunda e marcada de maleficência; a voz de um homem habituado a falar com os animais.
- E o que é qu aprendeu, esse homem? - perguntou Soliman El Abit, muito intrigado com esta história.
- Aprendeu a calar-se - respoindeu Bayoumi.

A Casa da Morte Certa, Albert Cossery, ed. Antígona

serviço despertar II

no entanto, quanto a mim, a versão que rufus melhor faz de leonard cohen é everybody knows, apropriando-se do tema até ao abanar da anquinha. oferecendo-lhe um colorido sassy que substitui perfeitamente a cafeína matinal.

serviço despertar

rufus wainwright, numa versão de chelsea hotel, do documentário i´m your man, topografando leonard cohen.

Segunda-feira, Junho 23

eu,tu e o videoclip

é inevitável. se ouço música, em decibéis generosos, num lugar em que esteja de passagem, sinto-me de imediato em estado de videoclip.
de facto, acho que tinha talento para ser uma das mocinhas dos eternos videoclips a preto e branco que, depois de muito penarem, partem, chorosas e sublimes, rumo ao ponte.

Terça-feira, Junho 17

arte poética

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor, um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges, Poemas Escolhidos, tradução de Ruy Belo, Dom Quixote, p. 63-64

Segunda-feira, Junho 16

complexo hipótalamo-hipófise

a minha vida intelectual também tem ponto g.

Sábado, Junho 14

publicidade, o além

creio que estará para breve o patrocínio existencial.
aquando da escolha onomástica da sua descendência, os pais poderão optar por nominalizações várias, que lhes proporcionarão dividendos e permitirão às marcas a capitalização de identidades até aqui por explorar.
resumindo, em alguns anos teremos registos de nascimento como os que se seguem:

úrsula marlboro da silva
bernardo mastercard pereira
carlos carlsberg da silva
eduardo montepio geral pereira
joana pingo doce da silva
leonor renault pereira
maria mercedes benz da silva
nuno samsung pereira
patrícia adidas da silva
raul philips pereira
vasco toyota da silva
xavier danone pereira
zulmira microsoft da silva

Segunda-feira, Junho 9

late bottled vintage

é manhã, retiramos os pés da nudez do sono e vestimo-nos

de hábito e quotidiano.

ainda ontem homero nos cantava

mas hoje só a farmácia

é o ateneu dos quatro ventos

com que nos salvamos.


é manhã e o silêncio abriga-nos do frio.

olham-se os rostos limpos, mas ninguém se atreve:

furtivamente, como uma criança depois de ter fugido da escola,

ficamos à espera sem saber

que foi há muito tempo atrás.


é manhã

nenhuma hora é

agora e na hora da nossa morte.


ufana

cronos surge-me mais fanado que devorador. apostamos voltar aos posts em algumas marés e alguns mais marinheiros.
entretanto, curvamo-nos em agradecida vénia, enquanto rebuscamos as primícias detori amos.

Sexta-feira, Maio 23

terapia ocupacional

Intervalo de Vida

Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses

Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros entre elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais de tarde nas costas de quem passámos

Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças

Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha da passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, p. 101, Presença

Domingo, Maio 18

liberdade condicional

na ausência de posts, consegui um novo emprego, mais três vasos de jacintos e terminei a leitura do tom jones de henry fielding. o resto foi sonambulismo.

Domingo, Abril 27

abrigo

















o cansaço é tanto que até os ossos me doem de sono. à minha frente viajam três corpos em estado de vulto. não sei de que almas são feitos, mas neste lugar partilhamos a irmandade da locomoção.
todos os viajantes são ulisses, sobretudo nós, os viajantes quotidianos.

chegar ao porto só não é como chegar a ítaca, velho e barbudo.
ninguém nos toma o palácio e a nossa pressa é a mesma de um estrangeiro à procura de abrigo, numa cidade em que a chuva deu a volta ao turismo.

consultório balzac


« A santidade da mulher é inconciliável com os deveres e liberdades da sociedade. Emancipar as mulheres é corrompê-las.(...)É preciso aceitar esta teoria em todo o seu rigor ou absolver as paixões.
Até agora, em França, a sociedade soube adoptar um meio termo: troça das infelicidades. Como os espartanos, que só puniam a falta de habilidade, parece admitir o roubo. Talvez este sistema seja o mais prudente.»

Balzac, A Mulher de Trinta Anos, Portugália Editores, p.123

Sábado, Abril 26

a man needs a maid



pelo tom, descarta-se a ironia. pela melodia e orquestração, parece-nos antes um patético trágico-épico. tentei debulhar a metáfora, vislumbrar a conotação implícita, mas nada se me afigurou. o pedido ontológico-existencial de neil young é mesmo doméstico. nada a fazer.

«I was thinking that
maybe I'd get a maid
Find a place nearby
for her to stay
Just someone
to keep my house clean,
Fix my meals and go away.

A maid. A man needs a maid.
A maid.»

Neil Young, « A Man Needs a Maid», The Harvest

anti-inflamatório

às vezes é o coração, fica redondo, apetece-lhe outras formas, outros desígnios menos diastólicos.
quem pode, perdoa-lhe e vai suspirando pelas escadas como uma virgem oitocentista.

outras é só a leitura do jornal daquele dia, ou o amigo que ia telefonar e não telefonou,mas quase sempre é uma espécie de sinusite sináptica, um congestionamento das memórias, uma confusão de espelhos, que aos entendidos poderia sugerir uma certa promiscuidade de sujeito e objecto.

afinal, nada é fácil como ver as paisagens e passar, da mesma maneira que fazem os comboios. os comboios e as suas cartografias neuronais, a horária paragem em todas as estações.

a próxima é terminal.
agora é a vez do corpo.

Sábado, Abril 19

intimação

lídia intima, alexandra comparece, o jogo faz-se!desta feita é o jogo-questionário-hermenêutica-da-subjectividade-reificante, se é que bem entendi.

gosto de janelas



sapatos vermelhos



guindastes




cachimbos



rotas de viagem




e mantas de cachemira.

Domingo, Abril 13

bláblá

Kundera indigna-se com o esquecimento a que foi votada calipso, a deusa que viveu com ulisses sete anos. Considera-a injustiçada, ante a exaltação de penélope.

Quanto a mim, penélope e +itaca são uma só e mesma substância, a ilha-mulher, a terra-mãe. O regresso a ítaca é, assim, um regresso ao útero. Só algo assim explica a figura da necessidade no regresso de ulisses.

O que poderia haver de tão obsidiante que nem à companhia dos deuses se sobrepusesse?
A fé de ulisses é uma fé co-movente. É a fé da natalidade.

dominicando

rodrigo leão ao piano, alexandra monteiro ao canapé.
ele agudo, eu grave, com muito dó.

Sábado, Abril 12

registo biográfico

alexandra monteiro, pecaminosa, culpada de infracções várias a todos os códigos penais, existenciais, retóricos e literários, tem preferido sempre os artefactos aos factos, os tributos às tributações.

míope por convicção, caótica por atribuição divina, alexandra monteiro, herdeira do neo-platonismo e de uma edição rara de o conde de monte-cristo, alterna a literatura do século XVIII com a cosmovisão televisiva, wittgenstein com o catálogo do ikea.

alexandra será morta, mas não rainha, muito menos mísera ou mesquinha. alexandra monteiro prefere o bom- gosto ao bom- senso e padece de graves hesitações relativamente ao uso do hífen.

conhece-se-lhe o gosto por mancebos, remingtons e camilo castelo branco. acredita na transmigração da alma e em serviços de chá para 12. a sua maior destreza consiste em pulular entre escribas, escreventes e escritores.

alexandra monteiro é autora de tratados de estética para guindastes.

estudou o ciclo de calvin e é conhecedora dos processos fotossintéticos. aprendeu ponto cruz, crochet e boas-maneiras. cita montaigne com o indicador em riste e nunca revelou problemas de insónia ou exsónia.

alexandra monteiro teve orgias de latim e foi amante de muitos homens, e até mulheres, constantes de variados catálogos bibliográficos.

alexandra monteiro é uma obra aberta, um estado de sítio. alexandra monteiro é uma anti-jocasta, nunca um anti-édipo.

atípica, atópica e sem clube, religião ou filosofia, alexandra monteiro voga por reuniões tupperware, pelo trascendentalismo, as consolações filosóficas e gastronómicas.

conta prever e prevenir o dia da sua morte.



Blog Entry

i really kant







What philosophy do you follow? (v1.03)
created with QuizFarm.com
You scored as Kantianism

Your life is guided by the ethical model of Kantianism: You seek to have consistent laws rule your actions, and your will is directed by reason.

"I do not, therefore, need any penetrating acuteness to see what I have to do in order that my volition be morally good. Inexperienced in the course of the world, incapable of being prepared for whatever might come to pass in it, I ask myself only: can you also will that your maxim become a universal law?"

Immanuel Kant

Kantianism



90%

Justice (Fairness)



60%

Existentialism



50%

Hedonism



45%

Strong Egoism



45%

Apathy



40%

Utilitarianism



35%

Nihilism



20%

Divine Command



5%


Segunda-feira, Abril 7

dr. house

é sabido como alguns condomínios proíbem a presença de animais domésticos no domicílio dos condóminos. não vejo como uma iguana possa perturbar a paz reinante da vizinhança, ainda que a mim me repugne enquanto representante da fauna terrestre. de qualquer modo não há iguanas atravessando o espaço comunal, sob a vigilância do dono e da trela.

há cães que podem incomodar unicamente porque ladram, mas raças há e espécimes que não o fazem. a pacatez dos felinos não me parece atentado algum à comodidade alheia.

no entanto, o meu mais veemente desejo e aspiração é encontrar um condomínio cuja expressa proibição diga respeito a crianças. muito especialmente a crianças que estão a aprender violino.

Domingo, Abril 6

idolatria

fez ontem 100 anos que nasceu bette davis.


“You know what I’m going to have on my gravestone?

‘She did it the hard way.’”

Sábado, Março 29

testamento

So bury me in wood,and I will splinter
Bury me in stone, and I will quake
Bury me in water and I will geyser
Bury me in fire, and I`m gonna phoenix
I´m gonna phoenix

("say valley maker", bill callahan)



(an empty case, that´s my crime)


Sexta-feira, Março 28

miopia

aos factos, tenho quase sempre preferido os artefactos.

diplonte

estar a meio do dia e não ter noção das horas é uma vitória sobre o cosmos.
chove e, portanto, eu deveria estar a padecer de melancolia aconchegada.
tenho mesmo todos os apetrechos que me habilitam ao mais perfeito verlinianismo, mas faltam-me clepsidras para ter a certeza que a cada fôlego meu sucede um outro, e que isso é o tempo que passa.

é o último dia para reformular todos os hábitos existenciais, pagar a usura do ócio, ver perfeitamente claro por entre a névoa e os estrangeiros.
estou à espera do regresso: serei outra vez ulisses, pisarei todas as ítacas, sem saber de qual parti.

terapia da fala

o coração dispara, bang.é o que me dizem às vezes. as pessoas falam por metáforas. falam assim porque a metáfora é um intermediário, a maneira de apontarmos muito lá para cima, enquanto ficamos sempre no mesmo lugar. uma metáfora é uma maneira de dizer o mar quando dizemos só azul. a metáfora é a tradução de que somos sempre a sombra de outra sombra.

metáfora é isto, uma grande folha de papel que amachucámos sem deitar nunca ao lixo, e o amachucar é que é a mensagem, nunca a folha.

arco baleno

estou no meio do meu dia a fazer silêncio. um silêncio deliberado, de boca tapada e bolsos cosidos por dentro.
parece que conspiro e, sim, sou uma criminosa sem vítimas.

não pensem que é mudez, é silêncio: estou-me a despir da sintaxe, mas não há erotismo.
o meu silêncio é desbotado e imóvel como a fotografia de um grupo de que já não sabemos os nomes.

nenhures de daniel jonas



a peça «nenhures», da autoria de Daniel Jonas, está em cena no Teatro Carlos Alberto até 6 de Abril. o texto convoca polifonicamente o imaginário caleidoscópico da poesia de Daniel Jonas no seu diálogo com a tradição poética, metamorfoses linguísticas e jogos de palavras.
a ideia dramática da peça é percorrida pelas tensões do espaço autoral e teatral e também das personas que o percorrem como habitantes de um teatro-mundo, palco da vida, que é, afinal, uma utopia, um não-lugar, o nenhures.





Segunda-feira, Março 3

são frésias, senhor

o ano passado, por causa de um poema de josé tolentino mendonça, plantei frésias. nunca as tinhas visto e nem sentido o cheiro. este ano brotaram. cheiram a chá, como já tinha aprendido aprioristicamente no poema de josé tolentino mendonça.







Frésias


Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio e Alvim, p.21-22



Domingo, Março 2

heterotrofia

às vezes esqueço-me que estamos os dois aqui.
a voz de todos os outros também fala por nós, quando só o silêncio é suficientemente áspero para te agarrar.
não sei a que viagem nos demos, se teríamos ficado estrangeiros de tanto nos olharmos, ou se foi quando começámos a ler os mapas que nos perdemos. é sabido, a corrupção da aleatoridade indigna os deuses.

parece-me que estás sentado no outro lado da minha vida, nessa outra que vivi e reconto pelos dedos da memória. parece-me que estás sentado e esperas uma grande calamidade.
como uma vestal, arrumei todos os telhados, estudei os fusos horários e as cidades impronunciáveis, mas sempre que chegamos, o mundo esvazia-se.

não sei para onde pode ir um ulisses sem ítaca.

ciclo de calvin

mentalmente, somos todos criaturas fotossintéticas.

Domingo, Fevereiro 24

contributos alexandrinos para o dicionário de ideias feitas

sob a vigilante tutela de flaubert e seu dicionário, atiramos para a contemporaneidade algumas entradas de ideias feitas:

campanha eleitoral: referir-se-lhe sempre como «em subida de tom»;

debate: sempre seguido de aceso; sendo de grande importância, acrescentar «aquém das expectativas».

eleitoral: é sempre uma corrida;

indecisos: sujeitos que decidem as eleições;

urnas:local aonde as pessoas afluem;

votação: local aonde as pessoas acorrem;


malvados

uma manhã laica de domingo pede leveza, mas sendo laboral exige risadas pelo meio. as minhas estiveram sob o alto patrocínio de malvados.





Sábado, Fevereiro 23

grandes teses para catalepsias hodiernas

um autor torna-se verdadeiramente incontornável quando podemos prescindir do genitivo que corresponde à sua obra. como quando passamos de Pessoa para pessoana.

Sartre em 2 segundos e três quartos

O existencialismo sartriano é uma apologia dos direitos de autor. O teatro da vida de Calderón é, para Sartre, uma possibilidade de autoria, mais do que actuação.

Terça-feira, Fevereiro 19

silabário

parece-me bem mais adequado utilizar-se a terminologia ordenhamento do território ao que amiúde por aqui avistamos.

filosofia continental

se até os continentes se puseram à deriva, como não eu mesma?

Quarta-feira, Fevereiro 13

Os Prazeres da Leitura

Os Prazeres da Leitura

No seu leito de moribundo o meu pai lê
As memórias de Casanova.
Eu vejo a noite cair,
Algumas janelas que se iluminam na rua.
Numa delas uma jovem lê
Junto ao vidro.
Há muito tempo que não ergue os olhos,
Mesmo com a escuridão a chegar.

Enquanto há ainda um resto de luz,
desejo que ela levante a cabeça,
E eu consiga ver-lhe a cara
Que já consigo imaginar,
Mas o livro deve ser intrigante.
Além disso, que silêncio,
Cada vez que volta uma página,
Consigo ouvir o meu pai, que também volta uma,
Como se eles lessem o mesmo livro.

*

Le Beau-Monde

O homem subiu para falar de Marcel Proust,
«O grande escritor francês»,
Para um caixote que era famoso pelos discursos
Sobre patrões desonestos e trabalharores pobres.

Eu juro (Tony Russo é minha testemnunha).
Era já noite dentro, a multidão ia diminuindo,
Mas logo todos regressaram
Para ver sobre que era aquela lengalenga.

Ele parecia uma das máquinas de lavar louça
De uma das espeluncas da Avenida B.
Ele roía as unhas enquanto falava.
Dizia isto e aquilo, devia ser em francês.

Toda a gente se empertigou, até os b~ebados.
Os valentões deixaram de exercitar os músculos.
Era como estar na igreja
Quando a Missa Cantada era dita em latim.

Ninguém entendia, mas todos ficavam alegres.
Quando acabou, foi-se embora, de vez,
Com passadas largas numa grande pressa.
Os restantes atardarm-se a dispersar.



Charles Simic, tradução de José Alberto Oliveira, Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, Assírio e Alvim

charles simic II

Seguem-se alguns excertos de uma entrevista dadas por Charles Simic, com o seu inevitável humor, retirados da revista Issue For, nos idos de 1998.

Who are your influences?

The way Don Juan adored different kind of women I adored different kind of poets. I went to bed, so to speak, with ancient Chinese, old Romans, French Symbolists, and American Modernists individually and in groups. I was so promiscuous. I'd be lying if I pretended that I had just one great love.

Who do you show your work to before you send it out to magazines?

I show it to Wallace Stevens and Emily Dickinson. If I catch them making faces, I hop back under the blankets and scribble some more.

When did you first feel what Pound called "the impulse" to write?

When I noticed in high school that one of my friends was attracting the best-looking girls by writing them sappy love poems.

Where do you find your inspiration these days?

Piece of cake. One needs inspiration to write when one is twenty. At the age of sixty, there's the mess of one's entire life and little time remaining to worry about.




Sexta-feira, Fevereiro 8

sinestesia



inevitável ouvir my body is a cage e não pensar em francis bacon.



A Esfinge

Quinta-feira, Fevereiro 7

improviso embriagado



Como se encontraram?Por acaso, como toda a gente. Como se chamavam?Que interessa?Donde vinham?Acaso se sabe para onde se vai? Que diziam? O amo não dizia nada e Jacques dizia que tudo o que nos acontece de bom e de mau aqui em baixo estava escrito lá em cima.

Diderot, Jacques, O Fatalista












Lembro-me da minha primeira leitura de Jacques O Fatalista; encantado com essa riqueza audaciosamente heteróclita onde a reflexão anda paredes-meias com a anedota, onde uma narrativa é a moldura de outra, encantado com essa liberdade de composição que se ri da regra da unidade de acção, perguntava-me: essa desordem soberba será devida a uma construção admirável, requintadamente calculada, ou dever-se-á antes à euforia de um puro improviso?Sem a menor dúvida, é o improviso o que aqui prevalece; mas a questão que, espontaneamente, eu me pusera fez-me compreender que há uma prodigiosa possibilidade arquitectónica contida nesse improviso embriagado, a possibilidade de uma construção complexa, rica, e que, ao mesmo tempo, seria perfeitamente calculada, medida e premeditada como o é necessariamente premeditada até mesmo a mais exuberante fantasia arquitectónica de uma catedral.

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos, p. 23

Domingo, Fevereiro 3

romeo is bleeding



gostava de saber comer vogais como tom waits

attente de dieu


No dia 3 de Fevereiro de 1909 nascia, em Paris, Simone Weil.
De passagem por Portugal, assiste a uma procissão de mulheres de pescadores, vestidas de negro, entoando cânticos pela praia. Tal suscita-lhe a compreensão de que «le christianisme est par excellence la religion des esclaves, que des esclaves ne peuvent pas ne pas y adhérer, et moi parmi les autres.»

*


«La création est de la part de Dieu un acte non pas d´expansion de soi, mas de retrait, de renoncement. Dieu et toutes les créatures, cela est moin que Dieu seul.»

Simone Weil, Attente de Dieu



*
Tenho amigos que rezam a Simone Weil
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor

Rezar dever ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espíritos sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
"até agora somos o esterco do mundo",
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça, A Estrada Branca, Assírio & Alvim

Quarta-feira, Janeiro 30

oporto revisited

estou sentada a fazer letras e tempo
enquanto penso no álvaro de campos
e na pulsão erótica que me suscita.

a mim também me querem
quotidiana e fútil e tributável.
mas ao que dizem os indícios perdi
num dia manco toda a minha lucidez.

é isto que apreendo:
factos, horários e tributações.
a minha alma está em estado burocrático
e as lentes são escassas para tanta miopia.

a existência, afinal, não pode ser graduável:
os seus desvios, inclinações e meteorologias.
com quantas leis farei uma mentira?

estou parada há muitos anos
a olhar para mim
mas o que mais sinto é velocidade.

pairo sobre a relatividade do tempo
e sou cuspida, constantemente, para cima de mim.
sou sempre muito depois. dissocio-me. estrangeiro-me.
onde bastará para me bastar?

não conheço medidas, toda eu sou tamanho.

sei, no entanto, que nunca bastei de me bastar.
tenho tamanho a menos para tanto de mim
e quem me percorre é veloz,
para trás ficam apenas
restos mortais e alguma ferrugem.

Quinta-feira, Janeiro 17

gramática de género

ela: fulana é magrinha, não é?
ele: não, fulana é normal.
ela: pois, era isso que eu queria dizer. para nós, normal é designativo de magrinha.
ele: exactamente, para as mulheres não há normal. e isso é o normal.

Segunda-feira, Janeiro 14

filhos do romance

« A sociedade ocidental adquiriu o hábito de se apresentar como a dos direitos do homem; mas antes de um homem poder ter direitos, teve de se constituir em indivíduo, considerar-se como tal e tal ser considerado; o que não poderia ter acontecido sem uma longa prática das artes europeias e em particular do romance que ensina o leitor a ser curioso do outro e a tentar compreender verdades que são diferentes das suas.


Neste sentido, Cioran tem razão ao designar a sociedade europeia como a «sociedade do romance» e ao falar dos europeus como «filhos do romance».

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos, p. 21, Edições Asa

Domingo, Janeiro 13

daysleeper

demorei 15 temas da minha playlist com a metade dos meus afazeres domésticos.
domingo, dominus dei. abro as janelas e ouço a chuva perfeita, é o meu anti-cristo a todas as deidades deste dia apagado e que atravesso de luzes acesas às 14:36.

não estou nada verlinana, e passo por cima dos contudo e apesar de da chuva. bebo chá e entretenho a fome domingueira com pão de centeio e queijo de cabra. a pausa serve também para a idolatraia e, sobretudo, para a idiotia.

a chuva é agora mais canora do que a música que alto toca. as janelas abertas dão-me uma impressão tropical que a ventania fria logo desmente. sinto-me a cronicar ao espelho.
a playlist tem 32 temas.do 16 ao 31 é a medida exacta do que me falta em tarefas domésticas.

Domingo, Janeiro 6

sala de espera

sentei -me como ditavam todas as regras e compêndios de boas maneiras e sorri como me tinha ensinado a tia adélia: não sorrias explicitamente, margarida, jamais sorrias explicitamente. e logo acrescentava a avó luísa: aliás ,menina, nunca faças nada explicitamente.

então, eu fiz tudo como se ainda ali estivessem aquelas duas hirtas mulheres instruindo-me. a saia composta, as luvas retiradas delicadamente. uma encenação perfeita. palmas invisíveis no meu peito, quase estremeço, quase, mas... ah, a compostura.foi por um triz.

sinto a cara mais quente, mas penso na tia adelaide e na avó luísa, as duas mortas, tão compostamente mortas... as mãos em disposição seráfica, os anéis com um brilho honesto e cirscunspecto e até um certo blush nas faces. o blush, lembro-me de entrar no velório e de reparar nas caras contristadas de quem lá estava ao me verem ali, sapatos de verniz aprumadamente pretos. alguns temiam o meu choque quando as visse, mas lembro -me apenas do blush nas faces. um blush explícito , mais carregado do que em qualquer hora na vida daquelas duas.

não sei porque lembro disto agora, não gosto de esperas, fazem-me sempre pensar em coisas desagradáveis. explicitamente desagradáveis. o doutor aparecerá dentro em pouco, creio. a recepcionista não pára de me olhar e isso confunde-me. não tenho nada que mereça ser olhado, apontantado, lembrado.

só talvez a minha extrema e grande ausência de explicitude.

as minhas unhas estão bonitas, poderei pousá-las na secretária do doutor sem embaraço. eu podia suspirar neste momento, mas não quero que a recepcionista olhe ainda mais para mim, mas .... ahhhh que vontade de suspirar eu sinto.

o doutor casou-se faz em abril três anos e foi uma linda cerimónia. usei um vestido circunspecto mas elegante, rosa chá, e o colar de pérolas da avó luísa.

a recepcionista está a ler uma revista. ela é demasiado explícita. tirou os olhos de cima de mim e agora sou eu quem a pode olhar. não o farei, contudo, seria demasiado explícito. olho as minhas unhas, como estão bonitas... talvez falte um anel, devia ter posto um anel na mão esquerda. a seguir sou eu a entrar... detesto estas esperas.

uma vez não me foram buscar à escola e fiquei sozinha com a última das empregadas que era gorda como não se pode ser gordo e me deu um copo de leite abarrotado de açúcar que me deixou enjoada.

até hoje, quando vejo pessoas gordas fico enjoada e com sabor de leite muito açucarado na boca. ser-se gordo é excessivo.

respiro o mais fundo que posso e quase suspiro. queria suspirar. ou talvez fumar. acho que eu poderia ser elegante, fumando. a moça levantou-se da cadeira. não, não pode ser, ela vem para aqui... o que quer ela comigo? eu não tenho nada para lhe dizer e recuso -me falar da espera , do tempo, da política ou de bordados.

viro-lhe cara, é isso , vou virar-lhe a cara. as horas...pergunta-me as horas e agradece com um sorriso. as pessoas gentis irritam-me porque temos de ser gentis com elas. não quero contratualidades com estranhos.

aaaa , doutor , tanta demora assim... não entendo... não gosto de esperas. fazem-me pensar sem ter controlo sobre o que penso e acho isso muito desagradável. quase que fico excessiva.
sabe doutor? tenho muito medo de ficar excessiva... é preciso manter um distanciamento seguro, cultivar uma frieza dinâmica nas relações, não acha doutor? doutor, diga qualquer coisa, interrompa-me, peça um esclarecimento. penso demasiado, corro o risco de começar a pensar demasiado.não quero âmagos, não quero aproximações.

quero viver em mim tão aparentemente como as maõs que arranjei para vir aqui e dispô-las sobre a mesa.

sim, doutor?sim?pode interromper?sim?

ponto de vista

passo horas a alternar a janela do teclado, com o teclado da janela. e recordo larkin, o poeta das janelas altas.

a minha janela dá para a igreja da lapa. os telhados que avisto têm tanto de cruz como de antenas.

foram sempre precisos muitos verbos e outros tantos artefactos mentais para que eu visse.

mas agora tenho a gramática míope e os olhos analfabetos.

totem e tabu

Estão calados os deuses esta manhã. Deve assim que nascemos, no intervalo de um maior silêncio. O nosso primeiro texto é um grito que acorda o tempo, esse tempo que nos deram os deuses e onde fundamos todas as utopias.

roll-on

A igreja da Lapa está em obras de recuperação. Parece agasalhada por uma cota medieval que, no entanto, não é mais do que uma conveniência de engenharia. Também a igreja do Marquês recupera a fachada angulosa e hirta, sob o alto patrocínio do Millenium BCP e a soberba vigilância dos teixos do jardim. Teremos por ora dias de fé patrocinada.

Terça-feira, Janeiro 1

a natureza humana










o que mais me inquieta nas leis anti-tabágicas são as eventuais repercussões cinematográficas.




Segunda-feira, Dezembro 31

born to be wilde

"É um livro simpático, para quem gosta dos gregos, do Kant, e assim. É para racionalistas ocidentais conservadores."

Súmula final da recensão ao livro Nostalgia do Absoluto de George Steiner, num blogue mesmo ao lado.


dress code

para as meninas



para os meninos



- bye, bye booze??!?
- oh no! bye, bye blues!


... já agora, prefiram dry martini...e feliz ano novo

consultório flaubert



Loiras: mais quentes que as morenas (v.morenas)

Morenas:mais quentes que as loiras (v. loiras)

Negras: mais quentes que as brancas (v. loiras e morenas)

Ruivas: ver loiras, morenas e negras

Dicionário das Ideias Feitas, Flaubert

Sábado, Dezembro 29

15 e 19

15 e 19, o dia escurece como prata antiga.
por cima dos telhados pássaros e antenas em comunhão espiritual. os animais esperam deitados e nós, deitados também, fingimos que acertamos os cálculos da alegria.
viemos lentos até aqui, nove meses como um dicionário fechado e, depois, a vida toda à procura das palavras.
no império dos signos, somos sempre os fora-da-lei.

missa do galo

O templo religa matéria e luz, porque o templo é ainda insubstancial.

Terça-feira, Dezembro 18

consultório flaubert


General: sempre bravo. Faz, em geral, o que não compete ao seu posto, como ser embaixador, conselheiro municipal ou chefe de governo.

Génio: não há motivo para o admirar; trata-se de uma nevrose.

Hermafrodita: excita curiosidades mórbidas.Procurar ver.

Dicionário das Ideias Feitas, Flaubert

alterações climáticas

depois de dias e dias de mezinhas, atchins e consultas várias a farmácias de toda a vizinhança e arredores, acredito convictamente que estou a precisar é de um aquecimento global.

Domingo, Dezembro 9

para meninos bem-comportados

bubblegum

a partir daquele dia, resolveu sentar-se no sofá e ficar quieto. para sempre.
tinha começado a acreditar que contribuir para a biodiversidade era contributo bastante.

Sábado, Dezembro 8

ridendo castigat mores


1654: a afirmação do arcebispo James Usher de que a Terra tinha nascido a 26 de Outubro de 4004 a.C, às nove da manhã, conferiu ao autor enorme credibilidade.



Sexta-feira, Dezembro 7

como parecer demente sem o desmentir I

estou inequivocamente convicta que todo meu modus operandi cerebral é wireless.

sociedade civil

nenhuma dietética
nem nenhuma dialéctica
me servem, baby.

estou farta, fútil
e morta demais.

com os sonhos falidos
e o coração em sucata
como podias tu querer

uma vagina obediente?

Quarta-feira, Dezembro 5

terapia da fala

começou a gostar tanto dos seus blogues, que preferia deixar o cão publicado e passear-se com os posts pela trela.

Terça-feira, Dezembro 4

o buraco do olho

Where the optic nerves attach to each of our retinas, there is a hole - a space where the eye is insensitive to light because of the nerve itself. The result is a circular gap in the central part of the visual field in both eyes.

"We never see that gap, though, because our minds fill in the gap with what the brain imagines should be beyond the hole. Our brain makes a best guess at what probably is in the center of our fileds of vision and then creates an image to fill that hole.

A portion of the image we see isn´t necessarily there at all."


Faith, Madness and Spontaneous Human Combustion, Gerald N. Callahan, p.89





estetas aos 7 anos

p: para que servem os sinais de trânsito?
r: os sinais de trânsito servem para as ruas ficarem mais bonitas.

Sábado, Dezembro 1

imitação de mondrian

era tão, mas tão minucioso que, quando embriagado, só andava aos «z».

"é favor não pisar os jacintos"


cuidado com o cão

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Prateleira

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Agustina Bessa Luís, As Pessoas Felizes

Kantianos


G. Bernard Shaw
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