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sexta-feira, agosto 1

segunda-feira, julho 28

linha amarela

em homenagem, temos a declarar o avistamento de certo mancebo, na linha amarela do metro portuense, lendo a ronda da noite, de agustina bessa luís, evento responsável por elevados níveis de comoção sentidos por diferentes portadores do título andante e postes de abastecimento energético.

sexta-feira, julho 18

história do camelo que chora

documentário lançado em 2004 que nos faz acompanhar o quotidiano de uma família mongol, no deserto de gobi, e as suas tentativas para salvar um camelo recém-nascido, rejeitado pela progenitora. abarcando o conjunto mais etnográfico, comove-nos com instantes narrativos e dramáticos, num registo muito próximo da comunhão silenciosa.

segunda-feira, junho 30

o voltaire do nilo

no passado dia 22 de junho, morreu em paris albert cossery. o escritor egípcio tinha 94 anos e faleceu no quarto de hotel que ocupava desde 1945, o mesmo ano que chegou a paris.
ao longo de cinquenta anos publicou oito romances, com o egipto como cenário e os mendigos, vagabundos e todos os errantes como personagens de eleição. bartleby é que me levou a cossery.
a morte do autor interceptou a leitura que faço de «a casa da morte certa».
o meu a páginas tantas assinala 57:

Estamos prestes a ser enterrados vivos - disse Soliman El Abit - e tu, ó homem, só pensas nos clientes. Onde tens o espírito?
- Conheço um homem - disse Bayoumi - que foi enterrado vivo. Aprendeu muitas coisas.
Falava com uma voz profunda e marcada de maleficência; a voz de um homem habituado a falar com os animais.
- E o que é qu aprendeu, esse homem? - perguntou Soliman El Abit, muito intrigado com esta história.
- Aprendeu a calar-se - respoindeu Bayoumi.

A Casa da Morte Certa, Albert Cossery, ed. Antígona

serviço despertar II

no entanto, quanto a mim, a versão que rufus melhor faz de leonard cohen é everybody knows, apropriando-se do tema até ao abanar da anquinha. oferecendo-lhe um colorido sassy que substitui perfeitamente a cafeína matinal.

serviço despertar

rufus wainwright, numa versão de chelsea hotel, do documentário i´m your man, topografando leonard cohen.

sábado, abril 26

a man needs a maid



pelo tom, descarta-se a ironia. pela melodia e orquestração, parece-nos antes um patético trágico-épico. tentei debulhar a metáfora, vislumbrar a conotação implícita, mas nada se me afigurou. o pedido ontológico-existencial de neil young é mesmo doméstico. nada a fazer.

«I was thinking that
maybe I'd get a maid
Find a place nearby
for her to stay
Just someone
to keep my house clean,
Fix my meals and go away.

A maid. A man needs a maid.
A maid.»

Neil Young, « A Man Needs a Maid», The Harvest

sexta-feira, março 28

nenhures de daniel jonas



a peça «nenhures», da autoria de Daniel Jonas, está em cena no Teatro Carlos Alberto até 6 de Abril. o texto convoca polifonicamente o imaginário caleidoscópico da poesia de Daniel Jonas no seu diálogo com a tradição poética, metamorfoses linguísticas e jogos de palavras.
a ideia dramática da peça é percorrida pelas tensões do espaço autoral e teatral e também das personas que o percorrem como habitantes de um teatro-mundo, palco da vida, que é, afinal, uma utopia, um não-lugar, o nenhures.





segunda-feira, março 3

são frésias, senhor

o ano passado, por causa de um poema de josé tolentino mendonça, plantei frésias. nunca as tinhas visto e nem sentido o cheiro. este ano brotaram. cheiram a chá, como já tinha aprendido aprioristicamente no poema de josé tolentino mendonça.







Frésias


Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio e Alvim, p.21-22



Kantianos